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segunda-feira, abril 23, 2007
Ibitipoca !
domingo, abril 08, 2007
Carta aos mergulhadores

"Como todos os seres humanos, nascemos no coração da mãe-terra. Temos braços e pernas, respiramos oxigênio que entra em pequenos pulmões. Passamos grande parte da nossa vida na posição vertical que nos dá uma maior autonomia e conforto na terra. Vistos superficialmente somos iguais a todos os seres humanos.
Somos homens e mulheres de espírito inquieto. Buscamos na nossa vida mais do que foi dado. Passamos por grandes provas para nos aproximar dos peixes. Transformamos nossos pés em grandes nadadeiras, seguramos o calor do nosso corpo com peles falsas e chegamos até a levar um novo pulmão em nossas costas. E tudo isto para quê? Para podermos satisfazer uma paixão, um sonho. Porque nós, algum dia, de alguma forma, fomos apresentados a um mundo novo. Um mundo de silêncio, calma, mistério, respeito e amizade. E esta calma e silêncio nos fizeram esquecer da bagunça e agitação do nosso mundo natal. O mistério envolveu nosso coração sedento de aventura.
O respeito que aprendemos a ter pelos verdadeiros habitantes desse mundo. Respeito esse que, só depois de ter sentido a inocência de um peixe, a inteligência de um golfinho, a majestade de uma baleia ou mesmo a força de um tubarão, podemos compreender.
E a amizade. Quando vamos até o fundo do mar, descobrimos que ali jamais poderíamos viver sozinhos. Então levamos mais alguém. E esta pessoa, chamada de dupla, companheiro ou simplesmente amigo, passa a ser importante para nós. Porque, além de poder salvar nossa vida, passa a compartilhar tudo que vemos e sentimos. E em duplas, passamos a ter equipes, e estas passam a ser cada vez maiores e mais unidas. E assim entendemos que somos todos velhos amigos mesmo que não nos conheçamos. E esse elo que nos une é maior que todos os outros que já encontramos
E isso faz com que nós mais do que amigos, sejamos irmãos. Faz de nós, mergulhadores."
Jacques Yves Cousteau 11/01/1910-25/06/1997
Vital
Estou muito grata à tudo, principalmente pela possibilidade de retomar o mergulho.
Fizemos uma saída no Porto de Arraial do Cabo-RJ, capital do mergulho! Incrível poder estar lá embaixo, como se estivesse em nossa morada original. O trabalho da respiração, o controle da descida, todo o ambiente ao redor a acolher o corpo que contempla e agradece. Esquecei do peso do cilindro, do cinto de lastro e toda aquela parafernália do mergulho, roupa meio astronauta do mar. Como somos desengonçados fora dágua e...harmônicos dentro dela.
Quisera que os filhos da Terra não a destruíssem mais. Educar a todos os seres sobre o valor do cuidado, do amor ao mar e a terra. Ensinar a cada criança, adulto ou idoso que não há nada melhor do que um mergulho para aprender a amar e a conservar o nosso ambiente.
Na sequência, mergulhando, primeiro ponto de mergulho, e na embarcação.
Bjs, Angel
sábado, março 31, 2007
300
quarta-feira, março 14, 2007
Anton

Este é Anton Raderscheidt, pintor expressionista alemão, e sua esposa Marta Hegemann. A foto foi tirada em torno de 1920. A rigidez de suas feições é assustadora. Qd olhei rapidamente, hoje pela manhã numa busca pela internet, lembrou-me Drácula. O modo como segura o pescoço nú de sua esposa, que parece ignorá-lo de perfil, somado ao busto estravagante e o excesso de gordura no pescoço parecem convidativos. Porque um artista posaria assim para uma foto histórica? Suas obras atravessam o construtivismo e beiram o expressionismo abstrato. São belas, intensas e ricas em cor. Ele nos fita dentro da alma, como se ainda vivo fosse, a prescutar nosso íntimo
Tive tantas idéias para esse texto, esqueci-me de todas. Já não ligo.Lentamente começo a mudar meus focos de interesses, trazendo a tona o que é legítimo, o que me torna viva, como o olhar da foto de Anton.
Tive tempo esta semana para preparar minha alimentação com zêlo, como se cada grama daquele alimento fosse meu de direito. Escolhi, embalei, carreguei, paguei, arrumei, fiz o cardápio, preparei o alimento. Fiz com calma, com prazer. Me senti maravilhosamente bem. Assimilação e eliminação, meu momento biológico-espiritual.
Ainda não consegui iniciar minha psicoterapia. Não encontro ninguém confiável. Os muito "confiáveis" são tb muito dispendiosos. Por que pagar tanto para alguém especializado te ouvir. Ainda acho que onde me sinto melhor é na arte, debruçada sobre tintas e pincéis. As cores ouvem minhas emoções e as linhas traçam meus sentimentos. São estas minhas conclusões terapêuticas do momento.
Foi uma tarde inteira de espera para a consulta com o hepatologista. O esquema medicamentoso (sabidamente hepatotóxico) está agredindo o fígado de forma incomum (para variar). Ele ficou indignado: - Como se esqueceram do fígado! Lá vou eu negociar minhas partes em SP.
Sinto uma predisposição a acreditar mais fortementemente em minha intuição e ela aponta para caminhos tão simples e por isso mesmo tão difíceis para mim de serem seguidos...
Não acredito que como quase toda a humanidade passarei um terço de minha vida dormindo e trabalhando, protelando para depois o trabalho real de desapego às fragilidades do ego. O esforço initerrupto de ser aceito. De não ser o que se é. Resta saber o que somos. Um tempo para a meditação, please! Não pode ser tão difícil assim, mas ao que parece, o que apreciamos mesmo é o apego,
E o sofrimento já me ensinou tanto, passar através da dor, isto é legítimo. Minha memória da dor, não é uma memória de desespero. Desta última, aprendi um pouco mais sobre isso. Sobre o passar com alma.
Parece que recebi um novo corpo, algo está acontecendo, intuição é assim, o que posso dizer?
Precisava sair há muito tempo.
O olhar de Anton, não é sereno, é?
Vc que não sabe nada sobre ele, cuja imagem foi encontrada no ciberespaço e nele estamos agora dividindo impressões. Quais perguntas faria à Anton?
Seu olhar me intimida
Angel
terça-feira, fevereiro 20, 2007
Transitoriedade

Aquela noite na enfermaria não conseguia dormir. Todas as noites, até então, havia sido mal dormidas, muita dor, desconforto e o acende-apaga de luzes. Os remédios precisavam ser administrados metodicamente. Havia um período de repouso relativo entre meia noite e quatro horas da manhã. Minha colega de quarto, uma senhora negra e determinada, também estava com muito desconforto. E, finalmente, no dia em que eu fiquei livre da medicação das 4 da matina, ela iniciou um novo antibiótico neste horário.Lembrei-me que dormir logo era uma boa idéia. Quando dormia preservava meu espaço durante os sonhos. Um espaço onde só entravam com autorização de meu inconsciente. Era meu melhor espaço com certeza. O espaço durante o dia limitava-se a minha cama na enfermaria conjunta, um banheiro e o corredor da unidade de transplante renal. Pensei em como driblar a dor para poder dormir. Sentada na cadeira ao lado da cama decidi-me por tomar o chá de espinheira santa que minha mãe havia trazido à tarde, bom cicatrizante. A outra alternativa era tomar Buscopan. Era uma questão de fé, eu sabia. Estava com fortes cólicas provocadas pela tuberculose no intestino, recém diagnosticada, e estava prescrito o remédio para o período noturno se tivesse dores. Pensei em quantos remédios já havia tomado num período tão curto, do ano novo até esta noite, menos de um mês. Quantas tentativas para fechar o famigerado diagnóstico, quantos antibióticos, quantos erros. Tudo isso me incomodava muito, com certeza, detesto tomar remédios. Olhei para a garrafinha térmica, servi-me com meio copo de chá, ainda estava morno, o que me trouxe algum conforto. Voltei para a cadeira, mentalizei que se aquele chá era para cólicas e úlceras então que mostrasse a que veio, era a minha pequena revolução pessoal- a revolução das ervas. Pedi um reforço divino, para garantir. Levantei-me decidida da cadeira e fui deitar. As dores passaram rápido, foi a minha melhor noite. Pela manhã ainda sentia aquele minúsculo sabor de sucesso, melhor seria dizer de conquista. Meu corpo, durante a internação, havia se transformado novamente num território desconhecido, precisava recuperá-lo.
Devo ter ido ao PS ao menos umas três vezes, numa delas foi para fazer o Usom. O residente era muito paciente e simpático. Em determinado momento chamou outro médico e ambos ficaram discutindo sobre a minha vesícula. Pedi que me explicassem: “afinal é colecistite agudizada ou não”. O médico riu:” É crônica, quem disse que era agudizada?” Começaram a discutir sobre uma mancha no íleo. Ao final disseram que eu faria uma TC do abdome...com contraste. Da TC fui para a colonoscopia, ou a “viagem ao centro da Terra”. A esta altura já havia percebido que se fosse vesícula estava bom demais. Resta dizer que o preparo da colonoscopia é bem pior do que o próprio exame, no qual estive consciente, embora sem sentir dor. Perguntei ao médico se ele havia conseguido fazer a biópsia, ele acenou que sim com a cabeça. Retornei a UTR. Foi uma semana de medo. O residente explicou com riqueza de detalhes que na pior das hipóteses seria neoplasia e na melhor citomegalovírus. O resultado da biópsia acusou tuberculose no intestino. Não sei se foi por conta do estado de torpor com tantos remédios e exames, mas a única coisa que ficou clara para mim era que teria alta do HC e poderia fazer o tratamento domiciliar. Fiquei muito aliviada com uma tuberculose que me deixava sair do hospital. Perdi 4 quilos em três semanas e ansiava por sair daquele ambiente.
Foi tudo muito lento, é só que eu posso dizer. A barriga dói, a quantidade de remédios é absurda, a sobrecarga sobre o fígado é grande e a função renal está absolutamente normal. Uma boa notícia afinal. Este tem sido o meu mundo “real” desde 02 de Janeiro de 2007 até agora.
Preciso de irrealidades, coisas invisíveis como preces rogando desde longa data por respostas para minha barriga inquieta.
O que sei sobre tuberculose? Quase nada, doença de poetas melancólicos. Resquiço de lembranças espirituais, dias inalcançáveis, lugares longínquos, sofrimento sem razão, asilos de recuperação para tuberculosos e escarradeiras.
Talvez sofra de melancolia embora minha tuberculose não seja contagiosa e acredito que, curável. Agora, não conheço cura para a melancolia. Curas invisíveis talvez.
Releio os ensinamentos de Buda. Reconhecerei que este mundo é em parte ilusão, sendo assim, agirei como uma mulher sábia acreditando que este não é um mundo real e escaparei assim do sofrimento. Não preciso acreditar na doença, nem nas aparências, nem no que dizem as pessoas...Devo acolher com a mente justa e tranqüila aquilo que vier. Deepak Chopra colou tudo do Budismo.
Venha então, Dona tuberculose intestinal, convido-a para um chá de ervas – açúcar ou adoçante?2007 começou finalmente!
